Eu amo quero que todos saibam disso,
Ó escarnecidos, ó desamparados,
São insultados pelo público covarde,
A quem chamam de fracassados!
Portanto, neste momento em que me lanço
No meio da batalha, onde vou
Bater, quebrar mais de uma lança,
Receber mais de um golpe cruel,
Onde o desejo ardente me devora
De atacar de frente meus rivais,
Sem saber ainda
O que sou, o que valho,
Penso em vocês, ó pobres coitados!
Em com quem, talvez, esta noite,
Eu compartilhe as misérias,
Entre as quais irei sentar-me;
E por muito tempo contemplo,
Para ver bem se tenho o coração forte,
Para me certificar da minha coragem,
A tristeza do destino de vocês.
Se eu fosse, pelo ridículo
Que vos lançam, deixado em polvorosa,
Ainda há tempo de recuar:
Seria melhor para mim voltar para casa.
Mas não! Pois quero a luta.
E a sua sorte não tem nada
Que me repugne ou me afaste.
Na verdade, eu a prefiro bem mais
Do que aquelas, que dizem ser mais felizes,
Dos que chamavam de “filisteus”;
Prefiro as iguarias etéreas
Dos seus sonhos aos banquetes deles!
Se eu cair como vocês,
Se eu tiver que esvaziar os alforjes,
Bem, e daí! Serei um de vocês,
Não é verdade, rapazes?
A vocês, então, que são alvo de escárnio e vaias,
E sobre os quais se abate o desprezo,
Ó multidão incontável, aglomeração,
Dos marginalizados, dos incompreendidos!
A vocês que foram assombrados pela quimera,
Do definitivo, do perfeito,
E que, por quererem fazer tudo muito bem,
Acabaram não fazendo nada;
A vocês que carregavam em suas mentes
Ideais sonhados belos demais,
A todos vocês, grandes poetas
De poemas inacabados;
A vocês cujas preguiças
Estão repletas de projetos tão orgulhosos,
E que são perseguidos pelos pesadelos
De temas magníficos demais;
A vocês cujo pensamento grandioso,
Grande demais, não cabia
Sem quebrá-la em uma forma,
Em um molde sem estragá-la;
A vocês, pintores, a quem desespera
A cor sempre fugaz,
Que diante de um jogo de luzes
Jogam seus pincéis de dor;
Músicos, pálidos ao ouvir
Dentro de vocês acordes maravilhosos,
E que, por não poderem reproduzi-los,
Têm lágrimas nos olhos;
A vocês que, não podendo traduzir
As sutilezas que sentem,
Preferem nunca criar,
Ó delicados, requintados fracassados!
A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os entusiasmados, os loucos,
A vocês, preguiçosos egoístas,
Que guardam suas obras dentro de si;
A vocês, os verdadeiros, os grandes artistas,
A vocês, os apaixonados, os loucos,
Que, sem dar ouvidos aos sarcasmos,
Triunfam em noites modestas;
A vocês, cujos entusiasmos
Gesticulam nas calçadas,
Personagens acrobáticos,
Feios, cabeludos e caretas,
Pobres dons, Quixotes grotescos,
E por isso mesmo ainda mais comoventes,
Cuja Musa é a Dulcinéia,
—Ó cavaleiros errantes da arte,
A quem a glória destinada
Talvez tenha faltado por acaso!
Sendo vosso amigo, vosso irmão,
EDMOND ROSTAND - TRAD.ERIC PONTY
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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