Samira, Escrevo-vos de um país distante. «Aqui», disse ela, «só temos sol uma vez por mês, e por pouco tempo.»
Já estamos a esfregar os olhos com dias de antecedência.
Mas foi em vão.
O tempo é implacável.
O sol só aparece na hora certa.
Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco como tua tez vista por um poeta que pouco conheço, mas foi vencido pelo cansaço.
Na metade do céu subido ardia
Mão clara, almo Pastor, quando deixavão
Céu verde pasto as cabras, e buscavão
Desta frescura suave água fria.
Com folha das árvores, tão sombria,
Raio candente as aves se amparavão:
Neste módulo esfregar, que cessavão,
Só nas roucas cigarras, paz sentia.
Quando Liso pastor n’hum campo verde
Samira, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tão tristes derramam.
Porque te vás de quem por ti se olhas,
Palhas quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.
V
Escrevo-vos do outro lado do mundo.
É importante que saiba isto.
Muitas vezes, as árvores tremem.
Recolhemos as folhas.
Têm uma quantidade incrível de nervuras.
Mas para quê?
Já não há nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, envergonhadas.
Será que a vida na Terra não poderia continuar sem vento?
Ou será que tudo tem de tremer, sempre, sempre?
Já a roxa e tão alva Aurora destoucava
Os doutros velos de ouro delicados,
E das urzes os campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava;
Quando do gentil gado se espalhava
De Sylvio e de Laurente pelos prados;
Pastores tão unos, e ambos apartados,
De quem mesmo pavor não se apartava.
Com verdadeira pranteia Laurente,
Não sei, (dizia) ó Nympha asseada,
Porque fenece jaz quem vive ausente;
Pois lide sem ti não resta ao nada.
Responde Sylvio: Amor não o consente:
Afrontar esperanças da tornada.
Há também agitação subterrânea e, dentro de casa, como se fossem acessos de raiva que se lançassem contra vós, como seres severos que quisessem arrancar confissões.
Não se vê nada, e o que se vê não tem a menor importância.
Nada, e, no entanto, trememos.
Porquê? Depois, há imenso para fazer, enquanto ainda há luz, de tal forma que mal temos tempo para nos olharmos um pouco.
POETA-TRADUTOR-LIBRETTISTA
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