deixou chorando para traz albor,
o saudável Adônis foi a caçar
pois sorri do amor é amante da caça.
Perturbada, Vênus, saiu ao caminho
com firme decisão de seduzi-lo.
“Três vezes”, começou, “mais que eu formoso,
flor cardinal, doçura que se impõe,
branca palomba, mais que rosa rubra,
labéu de ninfas, gosta mais que um homem.
Natura, ti faço, risco que se é
juro que com tua vida acaba o mundo.
“Alivia, oh maravilha a teu cavalo
e ata sua nobre testa ao seu estribo.
Se tu me consideras isto, a mudança,
o mel de mil segredos será tua.
Aqui, que não há serpes, toma assento
e deixa que te coma com meus beijos.
“Mas sem saciar teus lábios, de tal modo
que sintam há um mais morto na abundância
e passem sem parar do branco ao rubro:
que um beijo dure dez e vinte, nada;
em luta tanta travessia e gozosa,
se desvanece um dia de estio em uma hora.”
O toma, aqui, a palma, e ao do suor,
que é signo de vigor destas pessoas,
o chama, estremecida de paixão,
unguento terrestre para uma deusa.
É tal seu ardor e seu desejo, tanto,
que tira dele e logra desmontá-lo.
Hesita com um braço forte potro
e tem embaixo outro ao terno jovem
que com desdém se ofusca e afeta ao moro,
sem brio nem apetite de desporte;
ardendo em chamas ela, rubro fogo,
e ele, rubro de infâmia, como um gelo.
Ela ata depressa o nó de um ramo
arreios ornados. Veloz é o amor!
Atado está ao cavalo e ele se afana
por sujeitar-se a quem o cavalgou.
Ao que é mais forte que ele que o derruba.
não logra submete-lo a sua lascívia.
Nem bem vê no solo está em sua orelha,
quadril com quadril e joelho a joelho
o toca na face e ele se protesta,
mas ela o silencia de pouco a pouco
falando em beijos de uma língua rol:
“ Protesta e não abrirá mais esta boca. ”
Ele arde de infâmia e ela o alivia
de seus núbeis semblantes com suas lágrimas
que trata logo, com o que suspira
e seus cabelos de ouro, de secá-las.
A acusa de imodesta e de ofendê-lo
e ela assassina o resto com um beijo.
Como uma águia certeira pela fome
que em plumas, carne, ossos funde ao pico,
batendo suas asas para apresar-se
pois saciar papo pronto desenlaça
pestanas, sem, queixo ela lhe beija
e ali donde termina, recomeça.
Forçado a contentar, não a obedecer,
ele mente, ele arfa, ele atira a cara
seu alento, que ela engole e fala dele
que é ar celestial, vapor de graça:
quisera ser dos jardins pelas faces
regadas no vapor que ele suspira.
Qual pássaro atrapalhado entre às redes,
assim se encontra Adônis em seus braços;
e quando, em seu pudor, que mais resolve
mais belos são seus olhos desairados:
se chove quando riacho está crescido
por força se vai a desbordar no rio.
E ainda ela fixa, insisti em suas lindezas,
aos tons dessas suas lindas orelhinhas,
ele segue esquivo e triste e se entrega
purpúreo de vileza e branco de ira
mais rubro é como mais o adora e tanto
o mais um o adora se ele está branco.
Ele não, mas ela só pode amar
e, com a mão imortal de deusa, jura
que de seu peito suave não se irá
se ele não lhe dá trégua há tanta chuva
de lágrimas que molham seus cabelos
salda sua boa dívida com um beijo.
Ele, ante sua promessa, alçou queixo
qual junta que se emerge dentre as ondas
e, ao ver-se visto, há que submergiu;
lhe ajeita dar aquilo que ela lembra
mas, quando se ia preparar seus lábios,
olhos fecham ele ao lábio separa.
Jamais na canícula que um viajante
sofreu sede como ela ante seu amago:
ver o remédio e não poder tê-lo,
banhar-se em água e ser candeia viva!
“Piedade”, rogou-lhe, “homem desalmado,
um beijo peço; que te custa dá-lo?
“Me há galanteado igual que eu agora a ti
incluso ao fero e cruel deus da guerra,
que na luta nunca dobra o cerviz
e vence donde siga e donde queira.
Mas fui meu escravo e manso me pedia
daquilo que tens sem que eu lhe peça.
“Ele em meu altar há depor sua alabarda
seu fiel escudo, invencível elmo,
e terá que aprender bailes e escárnio
festejos, galanteios e outros jogos,
burlar-se do tambor, o rubro encena;
se escudou em mim e cama foi à tenda.
“Assim conquistador, minha conquista
e teve que arrastar correntes rosas;
sua força ao forte vigor se impunha
mas sucumbiu ao desdéns de sua senhora.
Cuidado, não presuma de enfrentar-te
a quem se impulso ao deus dos combates.
“Tão só ponha teus lábios nos meus lábios,
que há um sendo rubro não são formosos,
e beijo será um beijo partilhado.
Que há no solo? Olha-me aos meus olhos:
ali está sua beleza, e se há posado
em mim teus olhos, por quê não seus lábios?
“Te dá pudor beijar? Fecha outra vez
os olhos; e eu também e será escuro.
O que é de dois, amor o deixa ser;
ia não nos vem, valor, julguemos juntos.
Lilases donde estamos recostados
nem sabem fofocar nem que julgamos.
“A cor que te realça o lábio demonstra
que há um doce mas apetecível.
Não percas tua ocasião, que tempo voa
e a beleza poderá consumir-se.
As flores belas que se cortam tarde
não tardam em decompor e secar.
“Se fora eu franzina, horrível, anciã,
disforme, mal nutrida, de voz rouca,
reumática, vulgar, perdida, exausta,
distante, míope, seca, erma ou frouxa,
teria razão em que não merece-lo;
mas tu separa livre de defeitos?
“Não acha em minha frente nem uma áspera
meus olhos brilham grises e vivaces,
cada ano revertesse minha graça
minha carne é suave e as entranhas ardem;
minha mão branca e húmida em tua mão
que vai a derreter-se não é estranho.
“Se quer que fale, induzirá teu ouvido
ou, como uma fada, bailarei na erva,
no correr da ninfa de buço fino
que dança e não vê pisar a areia;
amor é dum espírito de fogo
compacto, mas flutua e é ligeiro.
“Vê como o delicado encaramujo
me aguenta qual se duma forte árvore?
E assim como as palombas enfermas
me levam noite e dia ao meu deleite?
Se é tão leve o amor, ó doce homem
por quê há de ser que a ti pese tanto?
“Se prenda de tu faz teu coração?
Tua direita ama ao teu esquerdo, por sinais?
Corteja-te e depois disse que não;
subtrai tua liberdade e acusa um roubo.
Narciso assim também creu enganar-me
no fim afogou ao ansiar beijar sua imagem.
“A tocha dá à luz; joia, luxo,
o formoso se usa e lavagem gosta;
a erva fede, dão plantas de frutos:
quem cresce para si, crescendo abusa.
O belo é a semente do belo;
que concebe, pois a ti conceberam.
“Por que não aumenta a alimentá-lo
si solo, com seu aumento, te alimenta?
É a lei da vida que hás engendrado
e que os teus vivam quando tu morreres.
Tua morte, assim não impedirás que viva
neles, pois ti cobraram-lhe à vida.”
A rainha apaixonada ficou a suar
pois ia a sombra que não os protegia.
Em pleno meio dia, o deus titã
cravava em sua parceira seu olho em chamas:
Se Adônis conduzirá sua carruagem
poderia ser como ele, junto a sua amante.
e Adônis, com negligência, e fatiga
e um gesto de desgosto oculto e denso
os cílios sobre sua fronte tão límpida
qual brumas que cerram sobre o céu,
exaspera focinho, grita: "Qual sol!
Não é tempo de amores. Eu me vou."
"Tão jovem", Vênus o disse, tão ingrato,
que escusas vãs dás para esconder-te!
Meu alento celestial, eflúvio alado,
mitigará o calor do sol cadente;
te farei com meu cabelo à viseira
e si arde, aí apagarão minhas lágrimas.
W,Shakespeare
Trad. Eric Ponty
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