quarta-feira, janeiro 09, 2013

Réquiem em fuga em Sol maior para Gonçalves Dias


Introduzione: Adagio molto

Suas naus que cediças cobertas de glória,
Os pródigos nadam navios com finória,
que meigos se fundem à voz do marmor:
São todos tão tíbios, certeiros contentes!
Sua marca lá toa na boca dos crentes,
junção de prodígios, de fúria e louvor!

No feito das lápides marmo verdores,
herdado das ondas — cobertos de ardores,
volteiam-se nos tetos d'altiva ilusão;
São muitos navios, que dos ânimos fortes,
Temíveis à pedra, que em densos dos nortes
Espantam-nos navios à imensa ilusão.

Nos quartos vizinhos, silentes, sem brio,
que crentes quebrando, lançando sombrio,
Incenso aspiraram em liras que traz
louvores das terras que os fortes descendem,
vultosos tributos herdados dependem,
das naus certeiras suspeitas que jaz.

No centro da tábua se estende certeiro,
adorna se aduna o conspícuo carneiro,
Do limbo penhora, dos lodos mais vis:
Os corpos deitados praticam na aurora,
E os jovens inquietos, restando penhora,
Derramam-se em choro dum dia infeliz.

Por certo — ninguém diz: pavor lhe é ignoto,
Seu chefe não diz: — que de um mar que revolto
Precinte por certo — da tábua tão frágil;
Assim lá na terra do extrato mundano
formavam distinto do vil mais humano
que formas perfeitas do nobre de ardil.

Acaso da terra padeceu parceiro,
Nos vãos dos carneiros: — na extensa palmeira
Assola-se é certo, tiveram missão;
Convidam a gente dos nautas credores,
Silentes se incumbem do acaso das flores,
são vários apreços da honrosa punção.

Conservam cabelos no brio das palmeiras,
Entesa-se a corpo beleza faceira,
Adorna-se o ventre com cenas gentis:
A lousa, entre as vaga, uma freira na beira,
nutrir-se memória, dobrando matiz,
murmuro do murmuro mar contradiz.

A Paz espaçosa a que cedo traz medo,
pascido do olhar densas sombras tão cedo,
alçada da agora da voz que silente,
pascia na terrestre da oculta vertente.

Palmeira tão calma, que pasce na glória,
no vento de humilde da voz Circe cria,
nas vagas do monte longínquo do pássaro,
nos tinham nas mágoas que d´águas tão raros.

Ó tempo de ensejos caídos dos rostos,
de negas gemidas noites dos gostos,
nublava na nuvem a fria à boca de hálito,
que crânios falantes em verves dos ritos.

Labuta da sina dos tempos minguados,
ninguém lhe tecia do rezado ousa lados,
erguiam-se das aves, do quê; diziam pedras;
trazer-lhes do santo do parvo de exedras.

E singram além das camoecas distâncias,
das gradas fortunas mar cobriam-lhe ânsias,
após, de tão frágil, que sombra à tez templo,
vertente que esmaga da folha do exemplo.

Lembranças dos vivos, dos grãos enchem gosto,
em tíbio do gesto que escrito cai postos,
se sabem sós selvas, que dores sem serpes,
estepes do oceano que correndo escarpes.

D´água que dos amplos do rio avisava,
sossego da calma na luz nego cava,
tremente que atrás homens flama trespassam,
eiras fadadas das frontes dão em passa.

Parques dos vividos dos céus luzes rés,
bradados do Carmo dos ingênuos das três,
de quem se sentou só nas vaga acéns postas,
bradada na curva da voz chora às costas.

Murmúrio chegam  sós palavras da lei,
sombrio que retorna na margem do rei,
chamar El Rei da raiz prima treva,
de quem o viver curvou verde à selva.

Estio que fez rio coragens dos pajens,
secada ribeira que abrange das margens,
o lume movido culmina dos serros,
memórias d´águas frementes dos erros.

A chispa relâmpago ao sol murmurar,
sussurro em sussurro em sussurro do mar,
murmúrio murmuro rumor do marulho 
candente da  chispa do raio de engulho.

Menuetto: Moderato e grazioso

Entre palmeiras, sabiá,
ser de tão simples gorjeia,
na tíbia terra envolve o dia
que pálidas aves passeiam,
donde decantam floreiam
lúgubres bosques já sem vida,
de ardores arderam lida,
das dores tíbios céus das flores
sustem-se na sua descaída,
em sombras das aves sofridas,
que em silente silêncio na eira,
muros de adobe da ramagem,
que olvidam na plumagem vista
ao lugar mais alto já crista.

Entre palmeiras, expõe céu,
às plumagens das nuvens véus,
supõe o gesto nítido léus,
é barulho das juntas ossos,
da vida carcomida fossos,
em crânios cravejados sós,
donde gorjeiam os vermes réus,
barulho porta cemitério,
bravio som pesado mistério,
das aves das sombras dos seus,
suprimida vida critérios
postados manhãs tíbias Deus,
expõe o diamante no luar,
sombra das nuvens soltas ar,
noturnos hábitos olvidam,
donde gorjeiam corujas dão
vozes aos sapos e dos grilos,
que passeiam dura terra filos,
donde longe garrido toa
em passos vorazes à toa,
que almas dos mais simples ressoa,
gestos firmes longe pessoas,
não gorjeiam mais como lá.

Em cismar, sozinho, à noite,
procuramos naufrágio açoite,
vozes gorjeiam surdos mar,
de suas lembranças pia luar,
enclausurados nós pascemos,
carregados em luto, temos,
olhar benigno duma freira,
apercebe-lhe nau sem eira,
afundar pétreo marmor mar.

Presto con fuoco

Venho presenciar esquiva,
veludo humílimo griva,
há crescer do marmor mar,
ânfora nau junto lar,
há de ser langor visão,
almas, entregue ilusão,
parto perfeito deságua,
na fonte do rumor d´agua,
densas sombras que se afogam,
naufragam imensos vão.

Ó jovem poeta que parte,
Musas silentes alardes,
há de nos conter à lágrima,
infinitas tumbas cima,
conduz à luz travessia
da dádiva anestesia,
quando certo dia ramagem
d´águas postaram plumagem,
já esquiva na luz amarga,
visão minha pasce alarga,
terá enfim sombra macia,
de cuja nau pétrea esguia
no marmor da lousa fria,
morre assistir findo dia.

Atravessa, ó Poeta, à vida
dos abismos sermos lida,
escuta estranho colher,
funda mais razão pascer,
cálido assopro desvão,
suave visita e sermão,
alegre corpo terrível
que mais viva ave sabiá,
vagas palmeiras entreabrem
terrível pasce à voz ave,
que não gorjeia à vista suave,
em sopro cálido anúncio,
tíbias garridas dobram fios;
deixem; deixem brônzeos sinos
imenso oficio brônzeos hinos.

Atravessa, ó Poeta, à lida,
sacrifício do naufrágio,
existência sem presságios,
pétreos marmos luz do Carmo,
fará enfim poema da vida.

Adagio

Não posso falar marmor,
Não posso dizer da lida.

VOLTA
Senhora, visão podeis
Diz marmor, ou que lida,
A ambos são frágeis vida:
Dizer — sim, mas não do Carmo;
Falar — não, mas não do fim.

OUTRAVOLTA
Senhora, visão é essa,
Ou que da nau sem-razão!
Que se eu vos indago — sim?
Objetais cá — ó perdão!

Senhora, isso é ilusão?
Oh! Que o é, mas não por fim;
Que quando vós falar — mim,
De um não quisera eu então!

Já nem sei que bem vos vira,
Nem que mais querer vos queira;
visão antes vossa que nossa,
perdão antes que meu que vossa.
Eric Ponty

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