sexta-feira, janeiro 16, 2015

ERIC PONTY, O ARTESÃO DO CAOS - Por Ivo Barroso (prefácio)

Você sabe o que é moinheira ou gaita galega? Não, pois o autor destes versos sabe e muito bem, já que põe o icto obrigatório na quarta sílaba, com a certeza de quem percorreu todas as possibilidades do decassílabo. Bom, isto você sabe o que é, não?, pois saiba que o Eric em seus poemas praticou tanto o sáfico (com ictos na 4ª. e 8ª. sílabas), quanto o heroico (apenas na sexta) e o pentâmetro iâmbico (nas sílabas pares). Pois ele é um jogral do verso, conhece e executa todas as piruetas, firulas e dislexias da métrica, e sua poesia (seu oceano poético por assim dizer) é um mar (isto mesmo!) de exercícios, buscas, tentativas, escorregões, equilibrismos na arte de fazer versos. No que respeita à estrofe, esse aglomerado de versos em que se divide o poema, ele vai do dístico ou parelha, ao terceto ou terza rima, do quarteto ou quadra ao quinteto ou quintilha, do sexteto ou sextilha à sétima, oitava, nona ou décima, sem falar na liberdade de criação que lhe propicia o verso moderno. No clássico, navega tanto na terza rima dantesca, quanto na oitava camoniana ou na nona spenseriana, em que os oito primeiros versos são de dez sílabas e o nono vem com doze. Além de sua intimidade com o decassílabo e suas inúmeras possibilidades, ele não se intimida com o dodecassílabo (verso de doze sílabas) e pratica tanto a sua especificidade, que é o alexandrino (verso de doze sílabas com cesura na sexta), quanto se exercita com facilidade pelo hendecassílabo, ou alexandrino espanhol,que é constituído por dois versos de seis sílabas sem cesura.

Se falarmos de rima, o leitor pode estar certo de que encontrará aqui todo o tipo delas: agudas, graves ou esdrúxulas, toantes, consoantes, consoantes-suficientes ou opulentas, perfeitas e imperfeitas, continuadas, emparelhadas, alternadas, cruzadas, intercaladas, opostas, remotas, misturadas, encadeadas, entrelaçadas, internas, leoninas, quadradas, equívocas, em mosaico ou ritornelo, sem falar nas visuais ou auditivas, e passando batido pelas possibilidades da aliteração.  Se quisermos falar de estilos e escolas, Eric é um bom exemplo quanto à sua diversidade. Ele praticou tanto o romantismo quanto o parnasianismo e o indianismo e tanto o simbolismo quanto o naturalismo. Fez de suas influências -- desde os nossos primeiros românticos, tipo Casimiro, aos mais avançados representantes da poesia científico, tipo Augusto dos Anjos -- um cadinho para as suas próprias elucubrações. Entrou feio e forte na poesia moderna e explorou todos os seus redutos, inclusive a práxis, parando (cautelosa e inteligentemente) no concretismo, certo que dali não sairia grande coisa.

Poesia épica, elegíaca, alegórica, epitalâmica, estrambótica – desenterrem palavras e conceitos por mais esdrúxulos que sejam e constatem que o Eric andou sondando, experimentando, tirando uma onda com eles. De modo que temos aqui sua chamada obra completa (um temperamento criador como o dele jamais completa sua obra, está sempre fazendo ou refazendo alguma coisa), em que praticamente tudo o que se poderia imaginar em possibilidades poéticas foi devidamente visitado.

É claro que, dotado de tantas habilidades, tocando tantos instrumentos, dispondo de toda essa parafernália de recursos e experimentos, a poesia de Eric não é para qualquer um, diria mesmo tratar-se de uma poesia invulgar, para confrades herméticos, uma poesia que nunca será recitada, premiada, e até mesmo editada. O público de Eric ainda está por vir e virá talvez um dia quando o livro já tenha desaparecido e a própria noção de poesia se tornado uma vaga lembrança. Mas para nós que ainda estamos aqui ela é um butim, uma arca a ser aberta e na qual se pode encontrar de tudo, desde pepitas a duríssimos fragmentos de quartzo. Tal poesia certamente não poderia expressar-se em linguagem comum, habitual, compreensível. Ela parece escrita em outra língua, uma língua que lembra a nossa como o catalão lembra o português, mas que exige do leitor uma reformulação, um trabalho de síntese, quase uma tradução interlingual. Eric não diz, sugere. Não significa, propõe enigmas. Lê-lo é um trabalho de recomposição poética em que o leitor se vê forçado a admitir que existe uma outra linguagem por trás de nosso idioma convencional.

Ivo Barroso (Tradutor da obra Completa de Arthur Rimbaud.Organizador da obra Completa de Charles Baudelaire)

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