quarta-feira, março 29, 2017

Cemitério marinho - Paul Valéry - Eric Tirado Viegas



(Decassílabo versos com rima)
Μή, φίλα ψυχά, βίον ἀθάνατον
σπεῦδε, τὰν δ' ἔμπρακτον ἄντλει μαχανάν.
     Pindare, Pythiques, III.


Este teto tranquilo, onde andam pombas,
Entre pinheiros tremula nas tumbas;
Meio-dia justo se compõe quase luzes
O mar, o mar, sempre se renovar
Oh lucro após de pensamento olhar
Um longo para a calma destes deuses!

Fins trabalhos puros trovão consuma
Diamante imperceptível mui d´espuma
E que a paz parece ser conceber!
Quando o abismo um sol fulgor repousa,
As Obras puras duma eterna causa,
Tempo brilhar e o sonho é saber.

Firme tesouro, simples à Minerva,
Massa de calma, e visível reserva,
Água soberba olhar guardar em ti
Tanto dormir abaixo dum véu chama,
Ô meu silêncio... edifício minha alma
Mas cheio ouro as mil telhas, teto ti.

Tempo do templo, só suspira sumo,
São deste ponto alcanço me acostumo,
Tudo resguarda olhar meu do oceano
Do Criador de doação tão soberana,
Cintilação semear-nos já serena,
Seja desdém que me alço soberano.

Quanto fundida fruta desta essência
Que dum deleite altera sua existência,
Faz boca onde forma morre de dor.
Sou aqui fumo vero fumaça assuma,
São canto do céu da alma que consuma,
A mudança das margens em fragor.

Belo céu, vero guarda céu alterável,
Após de tanto orgulho do estranhável,
Ócio total do pleno do poder.
Eu me abandono brio deste espaço,
Mansões dos mortos, sombra minha ao passo,
Que domestica frágil no mover.

Almas expostas tochas do solstício,
Admirável justiça, eu lhe apoio,
Das quais das luzes armam da piedade!
Eu me só rendo prima da pureza:
Que me resguarda!...Junto à luz beleza
Suposto espectro triste da metade.

Ó para meu eu, mim, para mim mesmo,
Da fonte poema, do imo de tão próximo,
Dentre da vida mais me envolve puro;
Eu espero do eco do amplo minha interna,
Amarga, sombra do som da cisterna,
Tocar-me d´alma d´oco do futuro!

Sabes tu, falso preso da folhagem,
Comedor golfos magros da linhagem,
São meus fechados olhos fascinados,
Corpo me arrasta até fim folgaria,
Que fronte o atrai está terra de ossaria?
Uma centelha pensa se ausentados.

Ferido sacro, pleno fel conduz,
Fração terrestre oferta para luz,
Que o léu me fez, domínio destas tochas;
Composto douro, pedras, cedros umbrias,
Que mármor tremam sobre estas úmbrias;
Mar fiel dorme sob covas rochas!

Cão arreda deste crente do esplendor!
Qual solitário riso do pastor,
Perpétuos dos carneiros misteriosos
Branco rebanho calmas destas tumbas,
Distantes as prudentes alvas pombas,
Sonhos altivos, anjos tão curiosos.

Aqui vindo futuro lenta moleza,
É claro inseto arranha-se na frieza,
Todo queimado vence aceita ar,
Que não sei da severa da existência...
A vida vasta livre desta ausência,
E amargura é doce alma clarear!

Mortos ocultos são bem territórios,
São lhes aquecem secam seus mistérios,
Do meio do alto, meio alterações,
Ajuízam de si, acenam de si mesma...
Fronte finda perfeito do diadema,
Eu sou de sua oculta tez mutação.

Tudo é meu conter de suas coações!
Lamentos, dúvida, entre minhas pressões,
São das falhas extensas do diamante…
Noite doridas são pesados mármores,
Erram o povo tronco destas árvores,
Extraídos outra vez partir errante.

Eles têm fundo espessa desta falta
Argila rubra bebe a branca casta;
Dom da vida passou às flores ornadas!
São dos mortos dicções familiares,
Arte pessoal das almas singulares?
A Larva fia-se lamentar mudada!

Gritos tão de agudos, moças iradas,
Olhos dos dentes, pálpebras miradas
Seio encantado face deste fogo,
Do sangue fulgiu lábios se renderam,
Últimos dons, os dedos que acorreram,
De tudo que há na terra esvai vai jogo!

Você boa alma espera sonhos danos,
Das cores aura são dos sempre enganos,
Olhos de carne onda, se fez aquém?
Atraíram quando for tão vaporosa?
Vá! Tudo evade! Minha está porosa,
Santa impaciência morreu também!

Magra imortal sombria deste doirado
Consolador do medo do laureado,
Da morte seio fez tão maternal,
Bela mentira dó que desta acusa!
Que nem conhece, quem que lhe recusa,
Crânio vazio de riso de eternal!

Profundos pais, de testa inabitada,
Embaixo pesos tantas já pazadas,
Terra confunde passam do jamais.
Roedor do vero verme irrefutável,
São ponto desta tábua do dormível,
Viver da vida não se ata jamais!

Amor, por mim, eu mesmo será cisma?
Dente secreto está que me aproxima,
Dos quais os nomes ele convencer!
Importa! Vê! Sonhando quer pegada!
Manta de carne agrada até camada
Vivente eu desse volto a pertencer!

Zenão! Cruel Zenão! Zenão d’Eleia!
Mas furo deste dardo se volteia
Vibrar nem voa, mais voeja do jamais!
Som pueril gera mata dardo fuga!
Ah! Sol... Qual sombra desta tartaruga
Aquiles d´alma grande passo mais!

Não! Não! … Levante! Tempo do exaustivo!
Confine corpo, forma, pensativo!
Beba do meu seio vento nascente!
Oh frescor, deste mar tão de exaltado,
Torna minha alma! Fonte do salgado!
Corram voltando d´onda do vivente!

Oh! Grande mar delírios de doirados,
Pele pantera, Clâmide em tornados,
Dos mil e mil dos ídolos sol qual,
Da livre carne azul, de Hidra absoluta,
Remorso da brilhante cauda solta
Tumulto paz idêntica tão igual!

Ergue ao vento! …. Qual viver tentar!
Abre e fecha meu livro, imenso ar,
Pó saltou pedra jorrar a rocha dela!
O nada desta folha de extasiada!
Rompa ondas! Se quebrem d’água alegrada!
Pacato teto onde picam as velas!

Eric Tirado Viegas

Nenhum comentário: